O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) poderia se inspirar na postura da presidente do México, Claudia Sheinbaum, para lidar com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. A avaliação é da professora de Relações Internacionais Guadalupe González, do Colégio do México, que defende uma estratégia baseada em “cabeça fria”, diálogo e menos confrontos públicos.
Em entrevista à BBC News Brasil, a especialista afirmou que a postura adotada por Sheinbaum na relação com Trump pode servir de referência ao governo brasileiro em meio às recentes tensões comerciais e políticas entre Brasília e Washington.
Segundo González, a estratégia mexicana busca evitar embates públicos e manter canais de negociação abertos, mesmo diante de divergências. Para a analista, uma atuação mais discreta pode ajudar a reduzir desgastes diplomáticos e preservar espaço para acordos.
A avaliação ocorre em um momento de mudanças no cenário político da América Latina. O presidente argentino Javier Milei tem chamado o avanço de governos e movimentos conservadores na região de “onda azul”, em contraposição à chamada “onda rosa”, marcada pela ascensão de governos de esquerda no início do século 21.
Para González, há sinais de crescimento de forças de direita e direita radical em diferentes países, mas ainda é cedo para afirmar se a tendência representa uma mudança duradoura no perfil ideológico dos eleitores latino-americanos.
A especialista considera que parte das vitórias recentes pode estar ligada ao chamado “voto de castigo”, quando eleitores demonstram insatisfação com governos que estão no poder e buscam alternativas políticas.
Na avaliação da professora, as redes sociais também têm ampliado a polarização e favorecido discursos mais emocionais e populistas. Segundo ela, o eleitorado está mais informado, mais participativo e mais exigente em relação a temas como segurança, economia e eficiência dos governos.
González também classificou Trump e o movimento Make America Great Again (Maga) como fatores de forte impacto na política internacional. Para ela, a participação do presidente americano em disputas eleitorais de outros países pode aumentar a polarização e gerar instabilidade nas democracias.
No Brasil, a discussão ganhou força após a imposição de novas tarifas sobre produtos brasileiros. Analistas citados pela reportagem avaliam que o tema pode influenciar o cenário eleitoral e aumentar a disputa entre grupos políticos alinhados a diferentes visões sobre a relação com os Estados Unidos.
A professora ressalta, porém, que o cenário regional ainda está em transformação e que não é possível prever por quanto tempo a chamada “onda azul” permanecerá ou quais serão seus efeitos nas próximas eleições.